Entrevista - Washington Olivetto / Horário Político: Começou o show de horrores.

Aug 21, 2008

O publicitário Washington Olivetto nunca aceitou fazer campanha política e, por isso, foi chamado para criar a campanha do Tribunal Superior Eleitoral deste ano. À folha ele critica o horário eleitoral e diz que a propaganda na televisão ainda tem forte impacto.

Essa semana começaram os programas do horário político eleitoral obrigatório. Tão cansativos quanto pronunciar suas nomenclaturas, eles contemplam o cidadão com um mix de bizarrice, mesmice e demagogia.

Confira os trechos da entrevista de Washington Olivetto a Folha de São Paulo.

Folha – Por que o Sr. Nunca trabalhou em campanhas políticas?

Washington Olivetto – Primeiro por questão geracional. Quando comecei a trabalhar, O Brasil vivia uma ditadura, obviamente não me identificava com isso e resolvi não fazer campanhas. Aí, me voltei para a iniciativa privada. Dependo tanto da decisão profissional, que , possivelmente se fosse fazer campanhas políticas faria mal. São comitês que resolvem tudo, tem um cara que dá palpite aqui, o outro quer agradar aquele… Horário Político Obrigatório…Essa palavra, obrigatório, me incomoda loucamente. Se fosse bom, não seria obrigatório. No público mais jovem, coisas impositivas são pouco eficientes.

Folha – Apesar disso, o Sr acredita que o horário político na televisão tem impacto forte?

OlivettoClaro que, num país de dimensões continentais como o Brasil, seja numa campanha política, seja na de um produto de consumo altamente popular, a força da Tv aberta é enorme, fundamental. O horário eleitoral, particularmente no jovem e no formado de opinião, tem um ranço grande e em alguns momentos é até desprezado ou ironizado. Mas em algumas camadas populares ainda funciona. Quatro anos é muito tempo e muita coisa mudou desde a última eleição em termos de mídia, hábitos de consumo, ambições, senso crítico. Mas uma coisa não vai mudar nunca: seja qual for a mídia, da mais digitalizada até um simples panfleto, se não houver a grande idéia não acontece nada. A comunicação sempre será um negócio de forte conteúdo. A forma é a maneira de expressar esse conteúdo.

Folha – Essa onda de escândalos, operações da PF, tende a afastar mais o eleitor do horário eleitoral?

Olivetto – Sim, isso afasta. As pessoas estão um pouco entediadas com o excesso de más noticias, de discussões. O denuncismo, que em outra época era característica de momentos de campanhas eleitorais, hoje está presente no cotidiano, o que torna o horário eleitoral mais cansativo. E hoje a propaganda precisa ter entretenimento. O horário eleitoral poderia passar honestidade, afetividade, senso de humor.

Folha – Que outros fatores tornam o horário eleitoral entediante?

Olivetto Não tem capacidade de surpreender, não tem diversidade. Muitas vezes interrompe um momento de prazer do publico. Sou contra a obrigatoriedade. O eleitor deveria escolher o candidato pela cobertura da imprensa. E veículos de comunicação deveriam declarar de que partido são. Acho bacana, como na imprensa internacional, um jornal dizer “sou democracata” ou “sou republicano”. É aberto e traz uma isenção.

Folha – Como o Sr avalia a uniformização das campanhas, com o marqueteiros fazendo slogans iguais para diferentes candidatos e pasteurizando até propostas?

OlivettoParece um prêt-à-porter. Isso é eticamente constrangedor. Você tem que desconfiar da proposta de gestão que surja de plano de marketing. Vai depender do senso crítico do eleitor. E isso não é determinado por poder aquisitivo ou formação intelectual – o intuitivo julga muito bem.

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